terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Passado Condenado - Nota



Nota sobre a próxima história

Passado Condenado

Os Órfãos do Lobo - #4


#4 - O Acidente

A chuva agora caía torrencialmente. Me acomodei perto de uma das janelas e fiquei um bom tempo observando a curva da estrada, enquanto tomava um chocolate quente até adormecer.

Os sentidos retornavam lentamente pela manhã junto com um torcicolo e lá fora o caos estava instaurado. Levantei meio grogue de sono e fui para rua. O tempo tinha melhorado apesar das nuvens carregadas. Olhei em volta toda aquela gente, ambulância, viaturas de polícia inclusive de outras cidades, guinchos… e o carro do Hector todo retorcido.

Por um segundo um turbilhão de cenas passaram pela minha cabeça: o abraço do meu pai, o aceno da minha mãe, as crianças brincando. Meu mundo havia explodido em questão de horas e eu estava ali no meio do furacão tomando encontrão, ouvindo pessoas gritando, outras balbuciando sobre o acidente da estrada, levantando hipóteses. Minhas mãos começaram a ficar frias e vidrei meus olhos no céu. Por quê? Por que estava acontecendo aquilo comigo? A respiração faltou no exato momento que senti duas mãos sobre meus ombros. Voltei novamente meus olhos para a terra e encontrei a senhora Daisy olhando para mim, com os olhos rasos d’água. Calmamente ela me envolveu em seus braços finos escondidos sob um chale azul desbotado e eu enterrei meu rosto em peito, deixando enfim que as lágrimas chegassem.

- Vem menina, vamos para minha casa. Você não precisa ver isso agora...

Caminhamos até a pensão sob olhares de pena e terror. Chegando lá, fomos direto para a cozinha onde ela me ofereceu pães e café.

- GREY! Podederia vir aqui para me ajudar, por favor? Grey? Onde esse garoto se meteu, Deus?! Grey!

Enquanto ela chamava pelo esquisito do Grey, eu a observava. Tão frágil naquele corpo e ao mesmo tempo tão resistente. Era uma mulher de fibra que resistira as guinadas da vida e mesmo a sorte limitando-a. Mas não dava para seguir com pensamentos assim e logo voltei para realidade, mas fui logo interrompida pela sra. Daisy novamente:

- Eu não sei o que há com aquele garoto. Ele sempre some mesmo eu insistindo para não sair à noite (apontando para a perna).

 -Senhora Daisy, meus pais… Indy. Eu preciso vê-los.

Levantei da cadeira e quando me virei ela pegou minha mão:

- Fique aqui, querida, será melhor. O resgate ainda não foi concluído e o que sabemos é que somente Indy, Archer e o Hector foram resgatados com vida e que foram levados para o hospital.

- MEU IRMÃO ESTÁ VIVO????

Nada mais importava e só queria ver meu pequeno Indy. Saí correndo da pensão em direção ao hospital que ficava umas 5 quadras. Passei como uma bala através daquele amontoado de gente e me deparei novamente com o carro Hector. Ele não estava retorcido como aparentava de longe; ele estava dilacerado. O vidro da frente estilhaçado e os laterais totalmente quebrados. O capô estava dobrado como tampa de lata de sardinha e marcas paralelas profundas estavam presentes em toda lataria. Diminuí a passada para observar aquela cena que parecia até uma montagem e voltei a correr para chegar o mais rápido possível ao hospital.

Chegando na emergência, quase pulei sobre o balcão da recepção tamanha era a velocidade que cheguei. A recepcionista quase caiu da cadeira com susto:

- Meu irmão. O acidente… cadê ele?

- Moça, acalme-se. Qual seu nome?

- Diana Brown. Trouxeram meu irmão pra cá. Do acidente. Indiana Brown.

- Indiana… ah, um momento por favor.

Fiquei ali parada observando em volta. Aparentemente o pior já tinha passado por ali e as coisas estavam calmas, pelo menos ali na frente. Não demorou muito a aparecer um sujeito acompanhado do delegado da cidade, procurando pelo irmão do paciente Indiana.

- Eu sou irmã dele, Diana. Disse aflita.

- Diana, sente aqui. Sua família sofreu um grave acidente e só seu irmão sobreviveu mas ele ainda corre risco de morte. 

- Mas o que aconteceu - olhei para o crachá procurando por uma identificação: “Turner, assistente social” - Turner? O carro que vi tinhas marcas estranhas… não parecia ter batido.

O delegado que estava de pé interrompeu:

- Um civil encontrou aquele carro capotado e quando chegamos, vimos os corpos ou que sobraram deles. O segundo carro caiu na ribanceira e sinceramente não sei como seu irmão escapou com vida. O estranho é que segundo a perícia, as crianças estavam juntas e existiam dois adultos no carro que você viu, mas somente uma delas e um homem permaneceram no carro. O restante foi arrastado e amontoado na ribanceira perto do outro veículo. Seu irmão estava debaixo dos corpos, sem um braço e-

- Delegado já é o suficiente. obrigada. Diana, sou o doutor Marcus responsável pelo hospital. Você conhecia as outras pessoas?

- Sim doutor.

- O sr. Hector e seu irmão estão passando por uma cirurgia. Seu irmão perdeu muito sangue e dois membros, fora o traumatismo craniano e outras pequenas fraturas. Já o sr. Hector recebeu cortes profundos no tórax e está com hemorragia.

- E quanto ao outro menino?

- Está fora de perigo. O deixamos na UTI em coma induzido por causa de um coágulo que se formou e passou por uma cirurgia de enxerto na coxa. Esperamos que o quadro se reverta em alguns dias. Acho melhor você ir pra casa, por enquanto.

- Não doutor, quero ficar aqui.

- Nesse caso - disse Turner - vou acomodar você em minha sala.

- Podemos improvisar um leito por lá e solicitarei a chefe da cozinha que separe alguns alimentos para ela. Completou o médico.

- Ótimo. Vamos para minha sala.

Chegando lá, eles separaram com colchão, coberta, um travesseiro, chá e uns biscoitos. A sala era pequena, mas mesmo assim tentaram me dar o mínimo de conforto. Compreendiam minha situação. A enfermeira designada para me ajudar, após arrumar meu canto, preparou um chá e me fez beber boa parte dele, alegando que iria me acalmar. Daí não lembro de muita coisa, apenas recostei e acordei novamente com o doutor agachado ao meu lado dizendo que meu irmão saiu da sala cirurgia e estava na UTI há algumas horas.

Levantei meio tonta - haviam me dopado, com certeza - e fui encaminhada pelo médico até a unidade onde Indy estava. Ali eu duvidei da existência de Deus. Por que permitir que uma criança sofresse algo tão brutal? Fiquei ali de frente para ele separada por uma janela de vidro observando aquele serzinho entubado e todo enfaixado, incompleto... nenhuma reação brotava de mim. Não conseguia pensar em mais nada a não ser em perguntas.

- Ele está acordando. Você gostaria de chegar mais perto?

- Han? Erh, sim. Quero sim.

- Vamos preparar você. Me acompanhe.

Enquanto entrávamos na ante-sala da unidade, perguntei sobre Hector.

- Infelizmente ele não sobreviveu. Era um homem forte… aguentou 3 reanimações. coloque esta roupa.

Para entrar, foi necessário vestir um jaleco, touca e sapatilhas hospitalares. Só assim poderíamos passar. Assim que cheguei perto, Indy abriu os olhinhos para mim. Com a respiração profunda, seguida do som dos aparelhos tentei falar algo sem chorar:

- Heeey… estou aqui agora. Vai ficar tu-tudo bem… você vai ver...

Ele piscou bem devagar e mexeu os dedinhos insinuando para que eu pegasse sua mão. Me aproximei e segurando sua mão, com a outra acariciei seu rosto. Indy acomodou a cabeça para olhar para frente, suspirou e cerrou os olhos.

Os aparelhos começaram a emitir um uníssono ziiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

- Não… Por favor Indy, NÃO!!!!

A equipe médica entrou correndo, me empurrando para trás abrindo espaço para reanimá-lo mas tudo foi em vão. Meu menino foi embora.

Agora eu estava sozinha, sem chão, sem direção.

(CONTINUA)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Os Órfãos do Lobo #3







#3 - O Último Abraço



A vida seguia sem grandes sustos se você seguisse as regras naturais do lugar ou seja, se não se aventurasse à noite pela floresta que beirava a cidade. E assim passaram alguns anos.

Agora era época das festas. Os dias eram mais curtos e se fazia tempo de redobrarmos o estoque do armazém, visto que normalmente as estradas ficavam interditadas por causa das chuvas, que deixava os seixos extremamente instáveis. Só que aquele foi o inverno mais rigoroso que vi, não havendo um dia que o frio e as tempestades dessem trégua para nós. Certa manhã meu pai então, resolveu que deveria enfrentar o mau tempo para ir à cidade, visto que já estávamos contando com uma lista de encomendas para segurarmos as vendas. Passamos o dia recolhendo os últimos pedidos e mamãe fazendo a lista do estoque junto com meu irmão Indy.

- Indy? Interrompi a mulher. A essa altura do campeonato já estava com um bloquinho e um lápis na mão anotando tudo enquanto era tagarelava sem parar.

- É, Indy. De Indiana Jones, lembra? Meu pai adoraaava as aventuras dele. Na época ele tinha uns 10 anos. Garçom! Deixa a garrafa!

Mamãe era esperta e já estava ensinando as funções do negócio ao meu irmão, enquanto eu já estava de frente nas vendas com meu pai. Ele dizia que eu tinha a lábia dele para as negociações, sabe?

A tarde já estava avançando quando meu pai encerrou as atividades e lá fora o tempo não dava trégua. A lista de encomendas era grande demais, somada ao estoque redobrado que deveria ser comprado e somente nossa pick-up não daria conta. Das duas, uma: faríamos duas viagens ou mais alguém o seguiria para ajudar na volta.

Mamãe estava preocupada com a questão das duas viagens e Hector entrou bem na hora que os dois estavam discutindo:

- Oi pessoal, o que houve?

- É o Valentin, Hector. Esse homem está louco! Precisamos reabastecer o armazém e ele quer fazer duas viagens debaixo dessa chuva!

- Ahahahah! Calma amor, a chuva vai dar uma acalmada e aproveitarei a oportunidade. Deixei que Indiana ligasse para nossos fornecedores para separar os itens que levaremos.

- O quê?! Val… ele é só um menino! Está aprenden-

- Calma Miriam… O menino não está aprendendo as manhas administrativas contigo? Então deixa o guri fazer o serviço completo, mulher.

- É Miriam, o Indy já está virando um rapazinho. Deixa ele sentir o gosto da responsabilidade.Valentim, eu te ajudo nessa. Minha caminhonete será que é suficiente?

- Ah é sim, Hector.

- Bem, então vou ajeitar as coisas. Aproveito e levo Madalena para ela distrair um pouco a cabeça.

- Nesse caso irei também. Disse mamãe. Eu que estava fechando os sacos de cereais, tomei um encontrão do Indy que entrou correndo gritando “eu quero ir, eu quero ir!”. Era um menino cheio de vida...

- Mamãe logo negou, claro. Aquela viagem seria cansativa e perigosa demais para ele ir e insistiu que ele ficasse.

- Miriam - disse Hector - vamos levar o Archer também. Val é um homem prudente e nada irá acontecer conosco. Ele olhou pelo vidro da porta, exclamando: Viu? não disse que a chuva ia melhorar? Vamos logo!

Eles rapidamente arrumaram os carros, enquanto as crianças tagarelavam sem parar de tanta felicidade no meio de Madalena e mamãe, que falavam sobre unhas, cabelos e blá blá blá feminino. Foi então que cheguei para o meu pai antes dele entrar no carro e lhe pedi a benção:

- Por que isso Diana? Você nunca me pediu benção…

- Não sei pai. Me deu vontade. Promete que volta logo?

- Claro, minha guerreira. Vamos demorar um pouco, mas voltaremos para você.

- Certo. Te amo pai… e lhe abracei forte.

- Eu também amo você. Obrigado por tudo que você é. Então ele me deu beijo na testa e entrou no carro.

Fiquei lá parada até os carros sumirem na primeira curva, enquanto levantavam lama. Então entrei no armazém e já que eu tinha “sobrado”, resolvi arrumar o local para receber as mercadorias e lá fiquei, trabalhando para passar o tempo até eles voltarem.

Então a noite chegou, avançou.

Eles não retornaram...

(CONTINUA)

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Os Órfãos do Lobo #2


#2 - O Vilarejo



A mulher já estava levemente embriagada e resolvi deixar com que prosseguisse com seu discurso, afinal, ela parecia precisar desabafar com alguém e além do mais não tinha nenhum compromisso a não ser me jogar na cama e dormir até o dia seguinte.

- Eu não vou te dizer em que ano aconteceu isso comigo muito menos aonde. Fica a seu critério montar esta parte do cenário; o que interessa saber foi o que aconteceu comigo. Uma maldição por assim dizer e desta vez, eu mesma fui culpada e é por isso que estou voltando, porque preciso acabar com este ciclo.

Vivi durante anos num vilarejo bem distante desta cidade construído no meio de um vale. Era um lugar próspero para o comércio pois a região era extremamente rural e carente de tudo e foi esse o motivo da minha família ter se mudado para lá. Quando chegamos, mal tinha um hospital, uma escola, delegacia e uma subprefeitura. 

Nos estabelecemos com a promessa de abrir um pequeno armazém suficiente para abastecer a pequena população e com o tempo as coisas foram melhorando por lá, com exceção do frio. Maldito lugar… para onde olhasse, as cores eram quase do mesmo tom. O Céu quando não estava carregado de nuvens, era de um azul acinzentado; as flores, a grama e frio. Sempre muito frio. 

Na época não havia crianças da minha idade para brincar e mesmo que tivesse, meus pais não deixariam eu sair, por acharem que seria perigoso, afinal, eu era a “filha do forasteiro” - deu pra sentir que alguns nos invejavam, não é? Minha felicidade era quando ele descia para renovar o estoque. Era minha oportunidade de ver as novidades e as vezes visitar meus amigos. Mas sempre tínhamos que retornar e o tédio ressurgia quando chegávamos na última curva da estrada que beirava o desfiladeiro. De lá, dava para ver perfeitamente toda a pequena cidade, que insistia em se firmar em meio a uma floresta densa e negra. 

Aquele inferno gelado possuía apenas uma avenida principal e nela beirava o comércio local. Além do meu pai e seu armazém, alguns outros também resolveram fazer negócio por ali. Antes dele, já funcionava uma loja de ferragens do sr. Hector; um cara de meia idade, claro, de quase 2 metros, gordo e com um bigode ruivo que se unia ao cavanhaque. Era casado com a senhora Madalena, moça que aparentava metade da idade do marido. Muito cheia de vida e sempre de bom-humor, sempre se mostrava disposta a ajudar em qualquer situação. Para matar o tédio, - sempre ele - ajudava a senhora Daisy em sua pensão. 

A senhora Daisy era de fato uma das mais antigas habitante do vilarejo. Viúva e sem filhos, resolveu ganhar dinheiro transformando sua casa em uma pensão, já que não tinha mais como trabalhar nos vinhedos, pois havia perdido metade da perna num ataque de lobos, anos antes e seu marido falecer. Apesar de Madalena a ajudar com alguns afazeres, achou por bem adotar um garoto chamado Grey. Ele tinha mais ou menos a minha idade, era tão magro e alto que chegava a curvar para frente. Seu rosto era fino e com um queixo pequeno projetado para frente, o deixava ainda mais esquisito quando fixava os olhos por debaixo das sobrancelhas. Era um garoto bem estranho e indiferente a tudo talvez por timidez ou por excesso de esquisitice, vai entender… 

Chegamos lá quando eu completei 14 anos e não demorou muito para começar a tocar o negócio junto com meu velho já que minha mãe ficava em casa cuidando da parte administrativa e do meu caçula até então com 6 anos. Por ser um lugar pequeno, as famílias se conheciam e os comerciantes se relacionavam muito bem. Meu irmão nesta época só queria saber de brincar com seu melhor amigo - e o único que regulava de idade com ele, o Archer, filho e Hector e Madalena - e como seu quarto era bem espaçoso, a brincadeira entre eles era constante e sem limites. 

A cidade? como disse, de longe era até bonita, mas quando se chegava perto, dava para sentir um ar pesado. Era cortada ao meio por uma rua larga de paralelepípedos, onde se estabelecia o comércio e as residências ficavam nas ruas adjacentes à ela. Já disse que tudo lá era um saco? 

Bem, o que chamava atenção eram as histórias do lugar. Mortes inexplicadas, desaparecimentos, suicídios… lobos. Eram sempre as mais estranhas, mas gostava mesmo as que Hector nos contava quando ia buscar o Archer.

(CONTINUA)

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Os órfãos do Lobo - # 1



#1 - O Bar

Mais um dia cansativo de trabalho. Eu que não sou de beber, merecia molhar minha garganta com qualquer coisa que contivesse álcool. Uma cerveja? - pensei - não. Hoje a noite será com poucas estrelas no Céu porém com lufadas frias de vento, daquelas que cortam o rosto.

Puxei o smartphone, chequei o aplicativo de tempo e olhei para o entardecer, enquanto pensava “É, realmente mereço beber algo que aqueça.”

Saí do trabalho pensando o que beberia. Um Scotch, Vodka? Tequilla! Não…quando estiver no bar, eu decido. Chega de planejamentos por hoje!

Peguei o metrô e me dirigi ao pólo gastronômico do meu bairro. Olhei em torno e nada me agradou; estava frio demais para ficar do lado de fora e foi então que ao me virar, reparei numa viela. Pouca iluminação, uns sacos de lixo já revirados na esquina e um pequeno letreiro luminoso indicava a entrada. Maverick era o nome.

Decidi que ali seria meu ponto de desestresse. “Não deve ser um lugar ruim. É fechado, reservado e não pretendo ficar muito tempo mesmo...”, dialoguei internamente enquanto caminhava para lá. Ao entrar, e deparei com um lugar cuja iluminação era fraca e levemente amarelada, o ar faltava um pouco e o teto estava repleto de fumaça dos cigarros; a parede era decorada com pôsteres de anúncios antigos (carro, cigarro, bebida), as mesas eram cercadas por poltronas vermelhas semi-circulares em mogno e seu estofamento em vermelho brilhante com capitonne. O público - muitos de terno com gravatas frouxas sobre o pescoço - produziam um murmurinho típico de um lugar intimista; volta e meia uma risada sobressaía, competindo com o Creedence que tocava quando entrei. Lentamente e confesso que completamente deslocada, procurei um lugar bem reservado e longe dos olhos masculinos que me acompanhavam afinal, uma mulher loira e de terno risca-de-giz não deveria ser uma figura muito comum naquele pub.

Finalmente algo me agradou. No fundo do estabelecimento tinha um bar em L com banquetas altas do mesmo material das poltronas fixas ao chão. O balcão, era também de madeira trabalhada em curvas com um tom mais claro e a bancada com um granito Raven Quarrie. Enquanto sentava e acomodava minha bolsa sobre o tampo, admirava as formas que a pedra produzira e logo fui interrompida pelo garçom e o cardápio empurrado para mim.

Abri o cardápio, passei os olhos dezenas de vezes sobre a carta de destilados e sem conclusão nenhuma, resolvi pedir algo para comer enquanto leria as notícias do dia e depois pediria a sugestão do barman.

Ainda com o cardápio aberto, tive a nítida sensação de estar sendo observada e foi aí que a notei: uma mulher. No canto do balcão, lá estava ela longe da claridade, segurando um copo do que parecia ser um whisky e olhando fixamente para mim interrompeu aquela cena que de tão desconsertante, parecia uma eternidade:

- Confusa com o cardápio?

- Erh, mais ou menos. Não sei o que pedir…

            - Sei como é - Levantando o copo contra luz, observou o pouco líquido que ainda restava e num gole só, o arrematou batendo em seguida com o objeto contra a bancada. - Walter, dose dupla pra mim e para mocinha!

            Sem saber o que dizer, me resumi ao “obrigado” e notei que ela vinha em minha direção. Era uma mulher aparentando um pouco mais de 40 anos, magra, clara e de cabelo castanho escuro preso em um coque com um pequeno bastão. Estava de calça jeans escura e sua postura atlética se revelava levemente sob a camisa vinho de mangas compridas. Ela sentou-se ao meu lado e recebeu os copos do barman:

- Toma. Esse é o melhor whisky da casa . Agora uma coisa é certa: aqui não é lugar pra você. Alguma coisa muito braba deve ter acontecido para te trazer a um bar como esse, estou errada?

- Não está. Tomei um gole do copo entupido de gelo e quase me engasguei de tão forte que era. Há semanas tenho trabalhado sob forte pressão e as coisas parecem não seguir os cursos normais. Sempre há um entrave e isso me deixa estressada.

- Entendo… mas lhe digo que há sempre problemas piores que o seu - sorveu mais um gole - e vou lhe contar uma história. Você já caçou…

- Emanuelle, disse eu.
             - Emanuelle. Me chamo Diana.



(CONTINUA)


sábado, 28 de junho de 2014

Breve Apresentação

Olá para você que lê.

Há muitos anos atrás, escrevi 3 histórias que se perderam com a tecnologia (sim, estavam num disquete) e assim o tempo passou. Agora, pessoas desconhecidas as quais encontrei na internet, me incentivaram a colocar novamente no papel - ou na tela - os contos que estão ainda guardados comigo. É claro que não será fácil reescrever exatamente como elas eram, mas quem sabe não há um ponto positivo nisso?

São ao todo 3 contos totalmente desenvolvidos:

1. Os Órfãos do Lobo

2. Passado Condenado

3. Exílio

Para começar, postarei um conto de cada vez e um pequeno trecho por semana. O primeiro a ser (re) desenvolvido será o "Os Órfãos".

Bem, acho que é só!

Obrigada e espero que goste!