quinta-feira, 31 de julho de 2014

Os órfãos do Lobo - # 1



#1 - O Bar

Mais um dia cansativo de trabalho. Eu que não sou de beber, merecia molhar minha garganta com qualquer coisa que contivesse álcool. Uma cerveja? - pensei - não. Hoje a noite será com poucas estrelas no Céu porém com lufadas frias de vento, daquelas que cortam o rosto.

Puxei o smartphone, chequei o aplicativo de tempo e olhei para o entardecer, enquanto pensava “É, realmente mereço beber algo que aqueça.”

Saí do trabalho pensando o que beberia. Um Scotch, Vodka? Tequilla! Não…quando estiver no bar, eu decido. Chega de planejamentos por hoje!

Peguei o metrô e me dirigi ao pólo gastronômico do meu bairro. Olhei em torno e nada me agradou; estava frio demais para ficar do lado de fora e foi então que ao me virar, reparei numa viela. Pouca iluminação, uns sacos de lixo já revirados na esquina e um pequeno letreiro luminoso indicava a entrada. Maverick era o nome.

Decidi que ali seria meu ponto de desestresse. “Não deve ser um lugar ruim. É fechado, reservado e não pretendo ficar muito tempo mesmo...”, dialoguei internamente enquanto caminhava para lá. Ao entrar, e deparei com um lugar cuja iluminação era fraca e levemente amarelada, o ar faltava um pouco e o teto estava repleto de fumaça dos cigarros; a parede era decorada com pôsteres de anúncios antigos (carro, cigarro, bebida), as mesas eram cercadas por poltronas vermelhas semi-circulares em mogno e seu estofamento em vermelho brilhante com capitonne. O público - muitos de terno com gravatas frouxas sobre o pescoço - produziam um murmurinho típico de um lugar intimista; volta e meia uma risada sobressaía, competindo com o Creedence que tocava quando entrei. Lentamente e confesso que completamente deslocada, procurei um lugar bem reservado e longe dos olhos masculinos que me acompanhavam afinal, uma mulher loira e de terno risca-de-giz não deveria ser uma figura muito comum naquele pub.

Finalmente algo me agradou. No fundo do estabelecimento tinha um bar em L com banquetas altas do mesmo material das poltronas fixas ao chão. O balcão, era também de madeira trabalhada em curvas com um tom mais claro e a bancada com um granito Raven Quarrie. Enquanto sentava e acomodava minha bolsa sobre o tampo, admirava as formas que a pedra produzira e logo fui interrompida pelo garçom e o cardápio empurrado para mim.

Abri o cardápio, passei os olhos dezenas de vezes sobre a carta de destilados e sem conclusão nenhuma, resolvi pedir algo para comer enquanto leria as notícias do dia e depois pediria a sugestão do barman.

Ainda com o cardápio aberto, tive a nítida sensação de estar sendo observada e foi aí que a notei: uma mulher. No canto do balcão, lá estava ela longe da claridade, segurando um copo do que parecia ser um whisky e olhando fixamente para mim interrompeu aquela cena que de tão desconsertante, parecia uma eternidade:

- Confusa com o cardápio?

- Erh, mais ou menos. Não sei o que pedir…

            - Sei como é - Levantando o copo contra luz, observou o pouco líquido que ainda restava e num gole só, o arrematou batendo em seguida com o objeto contra a bancada. - Walter, dose dupla pra mim e para mocinha!

            Sem saber o que dizer, me resumi ao “obrigado” e notei que ela vinha em minha direção. Era uma mulher aparentando um pouco mais de 40 anos, magra, clara e de cabelo castanho escuro preso em um coque com um pequeno bastão. Estava de calça jeans escura e sua postura atlética se revelava levemente sob a camisa vinho de mangas compridas. Ela sentou-se ao meu lado e recebeu os copos do barman:

- Toma. Esse é o melhor whisky da casa . Agora uma coisa é certa: aqui não é lugar pra você. Alguma coisa muito braba deve ter acontecido para te trazer a um bar como esse, estou errada?

- Não está. Tomei um gole do copo entupido de gelo e quase me engasguei de tão forte que era. Há semanas tenho trabalhado sob forte pressão e as coisas parecem não seguir os cursos normais. Sempre há um entrave e isso me deixa estressada.

- Entendo… mas lhe digo que há sempre problemas piores que o seu - sorveu mais um gole - e vou lhe contar uma história. Você já caçou…

- Emanuelle, disse eu.
             - Emanuelle. Me chamo Diana.



(CONTINUA)