#1 - O Bar
Mais um dia cansativo de trabalho. Eu que não sou de beber, merecia
molhar minha garganta com qualquer coisa que contivesse álcool. Uma cerveja? -
pensei - não. Hoje a noite será com poucas estrelas no Céu porém com lufadas
frias de vento, daquelas que cortam o rosto.
Puxei o smartphone, chequei o aplicativo de tempo e olhei para o
entardecer, enquanto pensava “É, realmente mereço beber algo que aqueça.”
Saí do trabalho pensando o que beberia. Um Scotch, Vodka? Tequilla!
Não…quando estiver no bar, eu decido. Chega de planejamentos por hoje!
Peguei o metrô e me dirigi ao pólo gastronômico do meu bairro. Olhei em
torno e nada me agradou; estava frio demais para ficar do lado de fora e foi
então que ao me virar, reparei numa viela. Pouca iluminação, uns sacos de lixo
já revirados na esquina e um pequeno letreiro luminoso indicava a entrada.
Maverick era o nome.
Decidi que ali seria meu ponto de desestresse. “Não deve ser um lugar
ruim. É fechado, reservado e não pretendo ficar muito tempo mesmo...”,
dialoguei internamente enquanto caminhava para lá. Ao entrar, e deparei com um
lugar cuja iluminação era fraca e levemente amarelada, o ar faltava um pouco e
o teto estava repleto de fumaça dos cigarros; a parede era decorada com
pôsteres de anúncios antigos (carro, cigarro, bebida), as mesas eram cercadas
por poltronas vermelhas semi-circulares em mogno e seu estofamento em vermelho
brilhante com capitonne. O público - muitos de terno com gravatas frouxas sobre
o pescoço - produziam um murmurinho típico de um lugar intimista; volta e meia
uma risada sobressaía, competindo com o Creedence que tocava quando entrei.
Lentamente e confesso que completamente deslocada, procurei um lugar bem
reservado e longe dos olhos masculinos que me acompanhavam afinal, uma mulher
loira e de terno risca-de-giz não deveria ser uma figura muito comum naquele
pub.
Finalmente algo me agradou. No fundo do estabelecimento tinha um bar em
L com banquetas altas do mesmo material das poltronas fixas ao chão. O balcão,
era também de madeira trabalhada em curvas com um tom mais claro e a bancada
com um granito Raven Quarrie. Enquanto sentava e acomodava minha bolsa sobre o
tampo, admirava as formas que a pedra produzira e logo fui interrompida pelo
garçom e o cardápio empurrado para mim.
Abri o cardápio, passei os olhos dezenas de vezes sobre a carta de
destilados e sem conclusão nenhuma, resolvi pedir algo para comer enquanto
leria as notícias do dia e depois pediria a sugestão do barman.
Ainda com o cardápio aberto, tive a nítida sensação de estar sendo
observada e foi aí que a notei: uma mulher. No canto do balcão, lá estava ela
longe da claridade, segurando um copo do que parecia ser um whisky e olhando
fixamente para mim interrompeu aquela cena que de tão desconsertante, parecia
uma eternidade:
- Confusa com o cardápio?
- Erh, mais ou menos. Não sei o que pedir…
- Sei como é - Levantando o copo contra luz,
observou o pouco líquido que ainda restava e num gole só, o arrematou batendo
em seguida com o objeto contra a bancada. - Walter, dose dupla pra mim e para
mocinha!
Sem saber o que dizer, me resumi ao “obrigado”
e notei que ela vinha em minha direção. Era uma mulher aparentando um pouco
mais de 40 anos, magra, clara e de cabelo castanho escuro preso em um coque com
um pequeno bastão. Estava de calça jeans escura e sua postura atlética se
revelava levemente sob a camisa vinho de mangas compridas. Ela sentou-se ao meu lado e recebeu os copos do barman:
- Toma. Esse é o melhor whisky da casa . Agora uma coisa é certa: aqui
não é lugar pra você. Alguma coisa muito braba deve ter acontecido para te
trazer a um bar como esse, estou errada?
- Não está. Tomei um gole do copo entupido de gelo e quase me engasguei
de tão forte que era. Há semanas tenho trabalhado sob forte pressão e as coisas
parecem não seguir os cursos normais. Sempre há um entrave e isso me deixa
estressada.
- Entendo… mas lhe digo que há sempre problemas piores que o seu -
sorveu mais um gole - e vou lhe contar uma história. Você já caçou…
- Emanuelle, disse eu.
- Emanuelle. Me chamo Diana.
(CONTINUA)