#2 - O Vilarejo
A mulher já estava levemente embriagada e resolvi deixar com que prosseguisse com seu discurso, afinal, ela parecia precisar desabafar com alguém e além do mais não tinha nenhum compromisso a não ser me jogar na cama e dormir até o dia seguinte.
- Eu não vou te dizer em que ano aconteceu isso comigo muito menos aonde. Fica a seu critério montar esta parte do cenário; o que interessa saber foi o que aconteceu comigo. Uma maldição por assim dizer e desta vez, eu mesma fui culpada e é por isso que estou voltando, porque preciso acabar com este ciclo.
Vivi durante anos num vilarejo bem distante desta cidade construído no meio de um vale. Era um lugar próspero para o comércio pois a região era extremamente rural e carente de tudo e foi esse o motivo da minha família ter se mudado para lá. Quando chegamos, mal tinha um hospital, uma escola, delegacia e uma subprefeitura.
Nos estabelecemos com a promessa de abrir um pequeno armazém suficiente para abastecer a pequena população e com o tempo as coisas foram melhorando por lá, com exceção do frio. Maldito lugar… para onde olhasse, as cores eram quase do mesmo tom. O Céu quando não estava carregado de nuvens, era de um azul acinzentado; as flores, a grama e frio. Sempre muito frio.
Na época não havia crianças da minha idade para brincar e mesmo que tivesse, meus pais não deixariam eu sair, por acharem que seria perigoso, afinal, eu era a “filha do forasteiro” - deu pra sentir que alguns nos invejavam, não é? Minha felicidade era quando ele descia para renovar o estoque. Era minha oportunidade de ver as novidades e as vezes visitar meus amigos. Mas sempre tínhamos que retornar e o tédio ressurgia quando chegávamos na última curva da estrada que beirava o desfiladeiro. De lá, dava para ver perfeitamente toda a pequena cidade, que insistia em se firmar em meio a uma floresta densa e negra.
Aquele inferno gelado possuía apenas uma avenida principal e nela beirava o comércio local. Além do meu pai e seu armazém, alguns outros também resolveram fazer negócio por ali. Antes dele, já funcionava uma loja de ferragens do sr. Hector; um cara de meia idade, claro, de quase 2 metros, gordo e com um bigode ruivo que se unia ao cavanhaque. Era casado com a senhora Madalena, moça que aparentava metade da idade do marido. Muito cheia de vida e sempre de bom-humor, sempre se mostrava disposta a ajudar em qualquer situação. Para matar o tédio, - sempre ele - ajudava a senhora Daisy em sua pensão.
A senhora Daisy era de fato uma das mais antigas habitante do vilarejo. Viúva e sem filhos, resolveu ganhar dinheiro transformando sua casa em uma pensão, já que não tinha mais como trabalhar nos vinhedos, pois havia perdido metade da perna num ataque de lobos, anos antes e seu marido falecer. Apesar de Madalena a ajudar com alguns afazeres, achou por bem adotar um garoto chamado Grey. Ele tinha mais ou menos a minha idade, era tão magro e alto que chegava a curvar para frente. Seu rosto era fino e com um queixo pequeno projetado para frente, o deixava ainda mais esquisito quando fixava os olhos por debaixo das sobrancelhas. Era um garoto bem estranho e indiferente a tudo talvez por timidez ou por excesso de esquisitice, vai entender…
Chegamos lá quando eu completei 14 anos e não demorou muito para começar a tocar o negócio junto com meu velho já que minha mãe ficava em casa cuidando da parte administrativa e do meu caçula até então com 6 anos. Por ser um lugar pequeno, as famílias se conheciam e os comerciantes se relacionavam muito bem. Meu irmão nesta época só queria saber de brincar com seu melhor amigo - e o único que regulava de idade com ele, o Archer, filho e Hector e Madalena - e como seu quarto era bem espaçoso, a brincadeira entre eles era constante e sem limites.
A cidade? como disse, de longe era até bonita, mas quando se chegava perto, dava para sentir um ar pesado. Era cortada ao meio por uma rua larga de paralelepípedos, onde se estabelecia o comércio e as residências ficavam nas ruas adjacentes à ela. Já disse que tudo lá era um saco?
Bem, o que chamava atenção eram as histórias do lugar. Mortes inexplicadas, desaparecimentos, suicídios… lobos. Eram sempre as mais estranhas, mas gostava mesmo as que Hector nos contava quando ia buscar o Archer.
(CONTINUA)
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