sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Os Órfãos do Lobo #3







#3 - O Último Abraço



A vida seguia sem grandes sustos se você seguisse as regras naturais do lugar ou seja, se não se aventurasse à noite pela floresta que beirava a cidade. E assim passaram alguns anos.

Agora era época das festas. Os dias eram mais curtos e se fazia tempo de redobrarmos o estoque do armazém, visto que normalmente as estradas ficavam interditadas por causa das chuvas, que deixava os seixos extremamente instáveis. Só que aquele foi o inverno mais rigoroso que vi, não havendo um dia que o frio e as tempestades dessem trégua para nós. Certa manhã meu pai então, resolveu que deveria enfrentar o mau tempo para ir à cidade, visto que já estávamos contando com uma lista de encomendas para segurarmos as vendas. Passamos o dia recolhendo os últimos pedidos e mamãe fazendo a lista do estoque junto com meu irmão Indy.

- Indy? Interrompi a mulher. A essa altura do campeonato já estava com um bloquinho e um lápis na mão anotando tudo enquanto era tagarelava sem parar.

- É, Indy. De Indiana Jones, lembra? Meu pai adoraaava as aventuras dele. Na época ele tinha uns 10 anos. Garçom! Deixa a garrafa!

Mamãe era esperta e já estava ensinando as funções do negócio ao meu irmão, enquanto eu já estava de frente nas vendas com meu pai. Ele dizia que eu tinha a lábia dele para as negociações, sabe?

A tarde já estava avançando quando meu pai encerrou as atividades e lá fora o tempo não dava trégua. A lista de encomendas era grande demais, somada ao estoque redobrado que deveria ser comprado e somente nossa pick-up não daria conta. Das duas, uma: faríamos duas viagens ou mais alguém o seguiria para ajudar na volta.

Mamãe estava preocupada com a questão das duas viagens e Hector entrou bem na hora que os dois estavam discutindo:

- Oi pessoal, o que houve?

- É o Valentin, Hector. Esse homem está louco! Precisamos reabastecer o armazém e ele quer fazer duas viagens debaixo dessa chuva!

- Ahahahah! Calma amor, a chuva vai dar uma acalmada e aproveitarei a oportunidade. Deixei que Indiana ligasse para nossos fornecedores para separar os itens que levaremos.

- O quê?! Val… ele é só um menino! Está aprenden-

- Calma Miriam… O menino não está aprendendo as manhas administrativas contigo? Então deixa o guri fazer o serviço completo, mulher.

- É Miriam, o Indy já está virando um rapazinho. Deixa ele sentir o gosto da responsabilidade.Valentim, eu te ajudo nessa. Minha caminhonete será que é suficiente?

- Ah é sim, Hector.

- Bem, então vou ajeitar as coisas. Aproveito e levo Madalena para ela distrair um pouco a cabeça.

- Nesse caso irei também. Disse mamãe. Eu que estava fechando os sacos de cereais, tomei um encontrão do Indy que entrou correndo gritando “eu quero ir, eu quero ir!”. Era um menino cheio de vida...

- Mamãe logo negou, claro. Aquela viagem seria cansativa e perigosa demais para ele ir e insistiu que ele ficasse.

- Miriam - disse Hector - vamos levar o Archer também. Val é um homem prudente e nada irá acontecer conosco. Ele olhou pelo vidro da porta, exclamando: Viu? não disse que a chuva ia melhorar? Vamos logo!

Eles rapidamente arrumaram os carros, enquanto as crianças tagarelavam sem parar de tanta felicidade no meio de Madalena e mamãe, que falavam sobre unhas, cabelos e blá blá blá feminino. Foi então que cheguei para o meu pai antes dele entrar no carro e lhe pedi a benção:

- Por que isso Diana? Você nunca me pediu benção…

- Não sei pai. Me deu vontade. Promete que volta logo?

- Claro, minha guerreira. Vamos demorar um pouco, mas voltaremos para você.

- Certo. Te amo pai… e lhe abracei forte.

- Eu também amo você. Obrigado por tudo que você é. Então ele me deu beijo na testa e entrou no carro.

Fiquei lá parada até os carros sumirem na primeira curva, enquanto levantavam lama. Então entrei no armazém e já que eu tinha “sobrado”, resolvi arrumar o local para receber as mercadorias e lá fiquei, trabalhando para passar o tempo até eles voltarem.

Então a noite chegou, avançou.

Eles não retornaram...

(CONTINUA)

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